Considerando a importância do momento histórico em que vivemos, e especialmente a contribuição deste cidadão brasileiro que hoje está recluso em território europeu, creio relevante repetir, e neste caso, documentando a entrevista exclusiva que ele concedeu a nós, nesta semana o perito computacional, documentoscópico, grafotécnico, especialista em inteligência artificial, fake news, eleições e cybercrimes, ex-assessor da presidência do Tribunal Superior Eleitoral de Alexandre de Moraes, coordenador do Núcleo de Inteligência do Tribunal Superior Eleitoral, o senhor Eduardo Tagliaferro.

OGIER BUCHI: Você foi convidado e começou a trabalhar em que setor no governo federal na sua esfera, do judiciário?
TAGLIAFERRO: Eu assumi o gabinete da assessoria especial de enfrentamento e desinformação. Era uma assessoria, era um gabinete que pertencia à presidência do Tribunal Superior Eleitoral e eu fui o chefe do gabinete. Esse gabinete ele fazia toda a relatação, relatava, né, o que se o que se era denunciado, que chegava até nós por meio de análise nos perfis, né, nos perfis de internet, no perfil de redes sociais, ali se colocava as URLs, que seriam o foco, né, o alvo da derrubada do pelo tribunal e encaminhava isso para o juízes auxiliares do ministro Alexandre de Moraes.
OGIER: Tá, encaminhava e aí eles derrubavam as redes sociais das pessoas por decisão judicial.
TAGLIAFERRO: Sim. Diferente do que o povo pensa que era eu que derrubava, não. Eu não tinha poder nenhum de derrubar. Simplesmente a minha equipe, ela chegava, por exemplo, um vídeo denunciando um ato em algum lugar, de alguma pessoa. Aí a gente tinha que constatar se aquele vídeo de fato era verdadeiro, em que perfil que ele estava de rede social, pegava-se o perfil da URL, botava em um relatório e encaminhava pro juízes auxiliar ou do Supremo Tribunal Federal ou do Tribunal Superior Eleitoral para que eles judicialmente tomassem as medidas necessárias.
OGIER: E aí, essas denúncias chegavam ao senhor e sua equipe e vocês não sentiram uma certa coincidência no fato dessas denúncias sempre visarem perfis da direita?
TAGLIAFERRO: Sim, sim. Com mais ou menos dois, duas a três semanas, eu estando lá, eu notei que só vinham denúncias, né, pedidos de pessoas que atuavam no lado, na direita e nenhuma na esquerda. Isso me chamou muita atenção. E eu cheguei a questionar uma servidora Cristina Ouara (Chefe de gabinete do Alexandre de Morais no Supremo Tribunal Federa), perguntando para ela: “Olha, que que tá acontecendo? Não vem nada de esquerda, é só direita, só direita que faz as coisas?”. Aí ela com uma expressão de indignação só me olhou e eu já entendi o recado, entendeu?
BUCHI: E ela era que era a partir dela que o senhor era demandado?
TAGLIAFERRO: Não, não, não. Algumas coisas até vinham dela, mas as demandas partiam do Alexandre de Moraes, o qual em um grupo (9 pessoas) entre eles passava para os juízes auxiliares, que até mim chegava. Estive com Alexandre umas três vezes.

OGIER BUCHI: Era sempre de direita a retirada de perfis?
TAGLIAFERRO: Sim. Foi um trabalho muito exausto, horas e horas de trabalho, final de semana. Foi bem, bem exaustivo. Quando eu notei que de fato ali havia um direcionamento político, eu já fiquei um pouco apreensivo, né, observando se de fato aquilo era o que eu tava realmente vendo, NE. Vendo a forma com que ele tratava os servidores, a forma que ele pedia, inclusive para mim, a forma com que ele era, de certa forma não tão sutil e vendo com o que ele fazia para essas pessoas as quais ele estava, entre aspas, perseguindo, a gente começa a ficar preocupado, porque se quem está longe já passa por tudo aquilo, imagina quem tá perto que poderia passar.
Então, a gente trabalha trabalhava com um pouco de medo, com receio. Como eu tentei diversas vezes pedir exoneração, virei até motivo de gozação dentro do gabinete, que eu era o famoso “pede exoneração” e nunca era dada. Que que eu fiz? Eu mantive comigo tudo que o que era feito. Guardei esse material e esperando que no momento oportuno que eu tivesse uma possibilidade, ou com a saída, com término, que eu não ia ali dentro do tribunal, não é? Interessava. Eu guardei tudo aquilo e esperei um momento oportuno para poder fazer e começar as minhas denúncias.
OGIER: E que momento foi esse?
TAGLIAFERRO: Infelizmente foi num momento trágico. Fizeram uma armação para mim com uma situação com a minha família. Jogaram isso como violência doméstica, como disparo de arma de fogo, que não ocorreu. Foi uma emboscada. Eu no momento oportuno vou mostrar o vídeo da audiência onde a própria pseudovítima fala que não aconteceu isso, que não teve violência. A pessoa que estava comigo no meu quarto, que foi pegar minha arma tudo e disparou a arma na mão dele e fala que eu não disparei, que foi um acidente, que foi na mão dele, que ele puxou a arma. Os laudos residuográficos dizem que eu não tenho resíduo de pólvora. Ou seja, eu não disparei e mesmo assim eu fui condenado em primeira instância por disparo de arma de fogo e violência doméstica.
OGIER: Evento pessoal, foi usado para exonerar o senhor.
TAGLIAFERRO: Sim, sim, sim. Exatamente. Eles têm o poder da caneta, né? Eles podem enjaular, eles podem calar. E inclusive dentro de uma cadeia a gente não sabe o que pode acontecer, né? É complicado. Se com pessoas com poder, eu não tenho poder nenhum, com poder de verdade, ah, e com muito dinheiro, estão acontecendo coisas absurdas, imagina comigo um, um simples mortal e perito. Então, a gente tem família, eu tenho filhas, tudo, a gente se preocupa com a família, né, com o nosso núcleo familiar. Então, o medo vem justamente da forma como age o ministro e das possibilidades que ele tem de punir os seus inimigos.
OGIER: Eduardo, você como é que você tá vivendo? Você consegue dormir? Você diz que tem duas filhas, como é que foi o teu domingo, dia dos pais?
TAGLIAFERRO: Longe delas. Elas no Brasil, eu aqui. Mas em termos de dormir, eu já tô na Itália tem uns 4 meses. Em questão de dormir, quando eu estava no Brasil, eu não dormia, sempre esperando uma busca e apreensão, uma prisão, alguma coisa do gênero ou até mesmo uma motivação maior aí, de um assassinato, né, de ser assassinado. Aí hoje aqui na Itália eu durmo muito bem, to tranquilo, de boa, o que tiver que acontecer vai acontecer também, não tô preocupado
OGIER: E você acha que isso teve um resultado positivo, com toda a experiência que você tem na área cibernética?
TAGLIAFERRO: Com certeza. Com certeza. Criou-se um monstro chamado extrema direita para a população. Então, a aquele eleitor que ele era, ele não votava no Lula porque odiava o Lula e não aceitava o Lula. Mas votava no Bolsonaro por falta de opção, que também não era muito simpatizante. Então, ele não queria que o Lula fosse eleito. A única opção que ele tinha era eleger o Bolsonaro. Esse eleitor, ele enfraqueceu, né? E foi criada uma situação em que Bolsonaro era um problema: era um armamentista, ia armar o país, ia ter golpe, ia ter aquilo. Então esse eleitorado nesse povo acabou votando no Lula justamente por medo do regime político aí militar, entendeu? Então se tanto se vê isso que a diferença de votos ela é muito pequena, ela é em torno de 1 milhão.
OGIER: Eu quero rememorar a diferença, não é 1 milhão, é 2 milhões. Se não houvesse esse processo de censura, o resultado seria outro? E se sente responsável por isso?
TAGLIAFERRO: Exatamente. Aos meus olhos, sim.Não penso dessa forma. Não vejo com esses olhos. Porque o que foi feito da minha parte, da parte da minha equipe, foi somente trazer o que tava dentro do vídeo. Era um vídeo, era uma foto, era uma postagem e colocada URL. A ação, a atuação partiu do magistrado. De certa forma, relatar aquilo não tinha problema nenhum.
OGIER: “Nós não tínhamos outra opção”?
TAGLIAFERRO: Exatamente. Ou faz ou faz. Servidores de carreira inclusive eram ameaçados de serem exonerados, ou seja, os concursados eram ameaçados, o que é uma absurda atitude em termos eleitorais.
OGIER: Circula na rede social a reclamação feita por áudio pelo juiz Airton Vieira, que é o juiz ao qual você se refere, que auxiliou o senhor Ministro Alexandre Moraes entre 2018 e março de 2025, quando ele relata as pressões sofridas no período em que serviu o gabinete.
TAGLIAFERRO: Eu acho que hoje o Supremo Tribunal Federal tem um poder ilimitado. Ele faz o que quer da forma que quer e como quer.
OGIER: Vem mais coisa pela frente, você vai falar com mais gente? Qual é, o que se espera daqui para a frente?
TAGLIAFERRO: Bom, todo o material produzido nas eleições de 2022 até maio de 2023, eles ficaram armazenados comigo em um local muito seguro e eles foram disponibilizados para uma emissora de repercussão internacional. O material já foi analisado, já foi comprovado que é um material verídico que partiu de fato com o meu telefone, que não tem qualquer tipo de manipulação. E eu tô somente aguardando agora a data da do agendamento da entrevista, para que a gente possa colocar todas as denúncias, inclusive os mais graves dos que já das que já apareceram, a conhecimento do povo brasileiro.
OGIER: Muito obrigado pela entrevista
ORAÇÃO DE OGIER BUCHI: Senhor, salve o Brasil. Amém!